O jornal “O Dia” publicou, na quinta-feira (15), artigo de autoria do desembargador Wagner Cinelli. No texto, intitulado “Feminicídio: Famílias entre o Lar e o Luto”, o magistrado discorre sobre a importância do enfrentamento à violência contra mulheres, e trata dos impactos sociais e culturais desse crime no Brasil.
Ao informar estatísticas, o desembargador destaca que a violência contra mulheres não é um fato isolado. “Trata-se de um fenômeno estrutural, histórico e profundamente enraizado em padrões culturais de desigualdade de gênero”, ressalta o magistrado, diretor Cultural da AMAERJ.
“É preciso romper o silêncio, questionar padrões culturais e compreender que esta é uma luta de todas as pessoas. A transformação começa em cada lar, em cada escola e em cada gesto de atenção. Assim, o medo se transforma em cuidado, o silêncio em coragem, e vidas podem ser salvas”, frisa.
Feminicídio: Famílias entre o Lar e o Luto
A violência contra mulheres no Brasil não é um fato isolado ou circunstancial: trata-se de um fenômeno estrutural, histórico e profundamente enraizado em padrões culturais de desigualdade de gênero. Como magistrado, com experiência nas áreas criminal e de família, vi nos processos judiciais o mesmo roteiro trágico. Na maior parte das vezes, a violência é praticada pelo atual ou ex-companheiro, ocorre dentro do lar e, com frequência, na presença dos filhos e outros familiares.
Os números confirmam a gravidade dessa situação. O Brasil registrou 1.492 feminicídios em 2024, o que equivale a quatro mulheres mortas por dia, mantendo o país entre aqueles que apresentam os maiores índices absolutos desse crime no mundo. Cada estatística representa uma vida interrompida, famílias destruídas e a perpetuação de um ciclo de dor.
Casos emblemáticos ajudam a compreender o impacto social e humano do feminicídio. O crime cometido pelo cantor Lindomar Castilho contra sua ex-esposa, em 1981, tornou-se um marco na luta contra a violência doméstica, impulsionando o movimento feminista e o histórico slogan “Quem ama não mata”. No dia do falecimento de Lindomar, sua filha expressou os efeitos duradouros desse delito: “O homem que mata também morre. Morre o pai e nasce um assassino, morre uma família inteira.”
Em minhas visitas e palestras em escolas, muitas mulheres compartilham suas experiências com a violência. Recentemente, uma orientadora educacional me contou: “Sou filha do feminicídio. Criança, vi meu pai matar minha mãe e, naquele momento, fiquei órfã dos dois, porque minha mãe foi para debaixo da terra e meu pai para a prisão.” Esse relato impactante evidencia que o feminicídio também é um crime contra a infância, deixando feridas que marcam gerações.
Falar sobre a violência que atinge meninas e mulheres é urgente e necessário. É preciso romper o silêncio, questionar padrões culturais e compreender que esta é uma luta de todas as pessoas. A transformação começa em cada lar, em cada escola e em cada gesto de atenção. Assim, o medo se transforma em cuidado, o silêncio em coragem, e vidas podem ser salvas.
Wagner Cinelli de Paula Freitas é desembargador do TJ-RJ e autor dos livros “Sobre Ela: uma história de violência” e “Metendo a Colher”.
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